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Colunistas/Saúde e Beleza | 12/12/2020

Ivermectina x Covid-19

Júlia Mendes é médica dermatologista e pediatra. CRM: 101090-SP / RQE: 32157/ RQE: 27484

AGÊNCIA BRASIL

A ivermectina foi introduzida, inicialmente, na medicina humana em 1981 para o tratamento da oncocercose (cegueira dos rios), uma filaríase causada pela Onchocerca volvulus. É uma doença de maior prevalência na África, embora esteja também presente na América, inclusive no Brasil, na área indígena do Amazonas.

 

É um fármaco com amplo espectro de atividade contra uma variedade de:

 

  • ectoparasitas: Sarcoptes scabiei (causador da escabiose), Pediculus humanus capitis (pediculose), Tunga penetrans (tungíase) e Ancilostoma brasiliensis (Larva migrans); 
  • endoparasitas: Ascaris lumbricoides (ascaridíase), Trichuris trichiura, (tricocefalíase), Enterobius vermicularis (enterobíase), e Strongyloides stercoralis, (estrongiloidíase).
  • Não tem ação nas parasitoses intestinais causadas por protozoários.

 

Nas dermatozooparasitoses a ivermectina é utilizada em dose única ou com a repetição do esquema após 7 a 10 dias apenas para o tratamento da pediculose. Nas parasitoses intestinais, a ascaridíase, a tricocefalíase e a oxiuríase, em dose única, e na estrongiloidíase, por dois dias.

A ivermectina, devido à ação inibitória da RNA helicase de alguns flavivírus, vem demons- trando uma possível indicação para alguns vírus, tendo sido solicitado um pedido de patente para terapia antiflavivírus off label em humanos.

 

Estudo recente, na Austrália, demonstrou que a ivermectina possui atividade antiviral, em teste in vitro, contra o SARS-CoV-2, o vírus causador da COVID-19. Este efeito in vitro também foi demonstrado contra outros vírus, como o HIV e alguns arbovírus como o vírus da zika, da febre amarela, chikungunya e dengue, mas nunca reproduzido em estudos clínicos, o que impediu o seu licenciamento para o tratamento de qualquer uma dessas doenças.

 

Para o tratamento da dengue, estudo recente de fase III, realizado na Tailândia mostrou que uma dose única diária de ivermectina não produziu qualquer efeito clínico benéfico nos pacientes com a doença, destacando o fato de que estudos in vitro nem sempre reproduzem seus resultados quando testados em humanos.

 

O que chamou a atenção dos pesquisadores que buscam um tratamento para a COVID-19 é que esses dois vírus possuem uma estrutura parecida com a do SARS-CoV-2. São fitas de RNA simples envoltas por uma capa de proteínas. Por isso, acreditam que o efeito do medicamento poderia ser semelhante contra esse novo patógeno.

 

Os cientistas infectaram células isoladas com o novo coronavírus e aplicaram dosagens específicas da ivermectina. Essas doses foram capazes de remover todo o RNA viral das células em 48 horas, já que o medicamento é capaz de inibir uma proteína usada pelo novo coronavírus para se movimentar pelo núcleo celular e começar sua replicação. Surpreendidos com os resultados, defendem que o medicamento pode ser um potencial e conveniente tratamento para a COVID-19, por ser uma droga já usada há anos, merecendo a realização de estudos clínicos em humanos, amparados por aprovação em comitês de ética, que possam responder estas perguntas.

 

Esse resultado, no entanto, deve ser avaliado com cuidado. Primeiro, porque o que se tem até agora é a publicação apenas dos resultados de uma primeira etapa da pesquisa, e nem sempre o que é observado in vitro se repete quando o medicamento é testado em animais ou em humanos. Segundo, porque de acordo com alguns pesquisadores, a dosagem utilizada em laboratório para inibir a replicação do vírus foi muito alta, e dificilmente se consegue aplicar essa mesma concentração em organismos vivos. Os próprios autores da pesquisa afirmaram ser necessários estudos clínicos em humanos para verificar se é possível alcançar doses terapêuticas da droga e usá-las no combate ao novo coronavírus. Há ensaio clínico registrado com o objetivo de testar a eficácia do tratamento com a invermectina para a COVID-19, porém ainda não foi iniciado.

 

Não há comprovação in vivo, até o momento, do efeito antiviral desta droga em animais e seres humanos. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), em publicação recente, desaconselha o uso da ivermectina para o tratamento da COVID-19.

 

Na pediatria, a ivermectina só pode ser indicada para crianças maiores de cinco anos e com o peso acima de 15 kg. A segurança e a efetividade da ivermectina em pacientes pediátricos, com menos de 15 kg de peso corporal ainda não está bem estabelecida. O uso também deve ser evitado em gestantes e lactantes. Porém, estudos recentes com o seu uso off label demostraram a segurança e eficácia em crianças com peso menor que 15 kg. Os efeitos adversos encontrados foram menores que 15% nas crianças tratadas, sendo os sintomas de moderada intensidade, como eczema, diarreia e vômitos, sem efeito grave. Entretanto, ainda há necessidade de mais estudos para decidir sobre a segurança do uso dessa substância em indivíduos com menos de 15 kg e em mulheres grávidas.

 

No Brasil, só existe a apresentação comercial da ivermectina em comprimidos de 6 mg.

 

Os efeitos colaterais mais comuns são: diarreia, náuseas, cefaleia, febre, astenia, anorexia, constipação intestinal, vômitos e dor abdominal. Há também manifestações neurológicas como tonturas, sonolência, vertigem, tremor, parestesia e convulsões; e cutâneas: urticária, erupção cutânea, coceira e edema.

 

Vale ressaltar que os sintomas mais frequentes da COVID-19 são: febre, tosse, dor de garganta, dor “tipo sinusite”, náuseas, perda de apetite, perda ou alteração do olfato e/ou do paladar, cansaço, dores musculares, dor torácica e falta de ar. Alguns pacientes apresentam sintomas gastrointestinais como náuseas, “dor de estômago” ou diarreia.

 

Sobre o tratamento precoce nos primeiros dias de sintomas:

 

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) não recomenda o tratamento farmacológico precoce para COVID-19 com qualquer medicamento (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal, dióxido de cloro), porque os estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais. Ou seja, não existe comprovação científica de que esses medicamentos sejam eficazes contra a COVD-19.

 

Essa orientação da SBI está alinhada com as recomendações das seguintes sociedades médicas científicas e outros organismos sanitários nacionais e internacionais, como: Sociedade de Infectologia dos EUA (IDSA) e da Europa (ESCMID), Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH), Centros Norte-Americanos de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Agência Nacional de Vigilância do Ministério da Saúde do Brasil (ANVISA).

 

Na fase inicial, medicamentos sintomáticos, como analgésicos e antitérmicos, como paracetamol e/ou dipirona, podem ser usados para pacientes que apresentam dor e/ou febre.

 


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


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