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Colunistas/Fábrica de Textão | 17/12/2020

O ano que bagunçou as gavetas.

Redator publicitário

E organizou nossas vidas.

Este ano foi preciso pegar aquela viagem, aquele projeto, alguns daqueles sonhos e guardar na gaveta.

 

A mesma gaveta que guardava aquele livro que você nunca tinha lido. Que guardava a gaita que você já não tocava há anos. Que tinha algumas lembranças de lugares que você tinha ido. E se esquecido.

 

A gaveta onde estava o relógio que foi do seu pai. Onde você havia deixado o primeiro chaveiro da sua própria casa. Onde ficava o seu bloquinho de ideias e projetos que nunca saíram de lá.

 

Onde estava o desenho que sua filha te entregou, em mais uma manhã que você saíra apressado para trabalhar. Você tinha reparado que no desenho estão todos de mãos dadas? Isso fez uma falta, né?

 

Este ano, quando fomos obrigados a guardar o “normal” na gaveta, percebemos quanto de nós, há tempos, estava lá trancado.

 

O ano que parecia ter chegado para dizer “não”, nos disse muitos “sim”.

 

Ao reduzir nossa velocidade e desligar o nosso piloto automático, ele nos fez corrigir a rota.

 

E para onde estávamos indo? Tanto faz. Nenhum destino interessa se você já não consegue mais aproveitar a viagem.

 

Pequenas telas viraram enormes janelas. E nos provaram que nenhum touch substitui um abraço. Nenhum like substitui um “eu te amo” falado pessoalmente.  

 

A gente que compartilha tanta coisa, sentiu falta da mesa compartilhada. Da risada alta vindo da cozinha. Do falatório na sala.

 

Sala de casa. Agora, de aula. De reunião. De ginástica. Sala de tudo.

 

Tudo se misturou. Tudo virou de cabeça para baixo. E quer saber? Está tudo bem. A gente aprendeu a ver a vida por outro ângulo.

 

Não se culpe pelo medo, pela incerteza, pela insegurança.

 

Não se culpe por se sentir frágil. Por achar que não vai dar. Que não vai conseguir. Nós já chegamos até aqui.

 

Este ano nos ensinou o sacrífico de nos afastarmos para proteger. E nos fez prometer, que quando isso passasse, daríamos mais valor ao que realmente importa.

 

E vai passar. Está passando. A gente começou a virar o jogo.

 

Cancele aquele último horário da agenda. Fica um pouco mais na cama, admirando enquanto ela dorme. Chega atrasado hoje. Brinque com o cachorro. Deixa o carro na garagem e vai andando. Estica um pouco esse almoço e passa em casa só para vê-lo.

 

Desligue a conexão do teu celular e se conecte com o que realmente te recarrega. Vá viver novos tbt’s sem precisar postar.

 

Abrace, chore, sorria, sonhe. Respire mais fundo e devagar. Destrave esse maxilar, bicho. Relaxe esse rosto tenso. Estica esses lábios e deixa a gente ver você sorrir. Peso nos ombros? Só se estiver servindo de cavalinho para a criançada.

 

Este ano nos ensinou mais do que qualquer outro. Não o esqueça. Não o risque do seu calendário ou apague da sua memória.

 

Sempre há uma nova folha. Do calendário e em branco.

 

Lembra da promessa?

 

Não vai guardá-la na gaveta, né?


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