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Colunistas/Livros e mais livros | 30/12/2020

Receita de Ano-Novo

Rafael Medeiros, Procurador do Município de São Paulo e um devorador de livros.

 A poesia e as boas festas de Drummond.

É inescapável. A época de fim de ano sempre nos convoca ao reexame do ano que se retira do calendário. Ao mesmo tempo projetamos sonhos e esperanças para o ano que se apresenta, tão reluzente e promissor no horizonte. É justamente sobre essa ambiguidade de sentimentos (melancolia/entusiasmo) que trata este pequenino Receita de Ano-Novo, em edição com poemas selecionados pelo neto de Drummond, Pedro Augusto Graña Drummond. 


O livro, que encarta curtos poemas drummondianos, apresenta um bocadinho de tudo com o que nos defrontamos no final do ano: o significado religioso, os papais-noéis mal ajambrados, o adeus ao tempo que passou, as memórias, a esperança. Alguns poemas irradiam beleza, como Disfarce, O Rei menino, Três presentes de fim de ano. A esperança é o sentimento que embala as quatro curtas linhas do lindo Sente bem este instante e inspira o bonito Passagem de ano. Um melancólico Drummond não consegue se despedir do ano findado em O ano passado. Mas o poema mais emblemático é aquele que empresta seu nome ao título: afinal, como se faz para ganhar um ano novo que mereça esse nome? Drummond responde lindamente. 

 

Se me é permitida a ousadia, fecho esta coluna -e o ano- pinçando aleatórias palavras de alguns poemas deste livro para lhes dar a minha íntima ordem e sentido e, assim, desejar boas festas a todos: procura no teu tempo uma estrela nova que nunca foi visitada, tenta juntar a bondade à beleza e grava tudo isso no cristal da tua memória, mas não esquece o mais importante: (re)começa o caminho da vida que cochila e te espera desde sempre


Feliz Ano-Novo! 

 

Motivos para ler:


1– Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é, por aclamação, o maior poeta brasileiro. Para quem gosta de poesia não há melhor referência nas letras destas terras. Muita gente o ombreia com os grandes nomes da poesia em qualquer idioma;


2– A par das diversas emoções que os poemas evocam, há duas provocações engraçadas. Elas figuram respectivamente na Introdução I e Introdução II: na primeira, Drummond reconhece o bobo hábito de desejar boas festas, mas indaga: se ninguém se lembrasse desses votos, não seria triste? Na segunda, narra o hábito de um amigo que costuma enviar para si próprio um cartão de Natal com os dizeres “calma, rapaz”. Nada de paz, amor, prosperidade ou sucesso: só calma;


3– Ano difícil. A pior crise sanitária do século e uma gestão governamental pífia romperam de tal forma o tecido social que o país se encontra rachado e sem unidade. O presidente, sempre que pode, faz questão de externar seu deboche, pirraça e negacionismo perante o problema. Sobre o nosso assunto (livros), disse que “são um amontoado de coisas escritas”, que é preciso “suavizar isso daí”. Muita tacanhice, pouco trabalho e nenhuma responsabilidade. Entre mortos e desempregados, o Brasil vive uma crise sem precedentes. Concordamos com o português José Saramago: não somos pessimistas, o mundo é que é ruim demais. Não há mensagem otimista possível. Desejamos sorte. Por cá, seguimos. 

 

 


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


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