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Colunistas/Livros e mais livros | 06/01/2021

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Rafael Medeiros, Procurador do Município de São Paulo e um devorador de livros.

A genialidade machadiana.

O melhor escritor brasileiro de todos os tempos. Para muitos este é o epíteto reservado a Machado de Assis. Gostos à parte, ninguém discute a colossal qualidade dos seus escritos. E encontramos, junto ao talento absurdo, um atributo que só pertence às obras de enorme vulto: a universalidade no tempo e no espaço.

 

Machado (1839-1908) pode ser lido hoje, em qualquer parte do mundo, e provocará assombros.

 


Memórias Póstumas de Brás Cubas, seu quinto romance, costuma ser compreendido como o início de sua era de ouro. Suas obras anteriores já lampejavam talento, mas foi a partir de Memórias Póstumas que a genialidade irrompeu vigorosamente e causou deslumbramento. Seguiram-se daí Quincas Borba, Dom Casmurro, Memorial de Aires... Daí para a eternidade. 

 


Brás Cubas é um defunto-narrador. Do além-túmulo resolve contar sua vida, e o faz em curtos capítulos – alguns tão geniais que poderiam ser lidos ao acaso, como se fossem pequenos contos perolados. Por ser “a franqueza a primeira virtude de um defunto”, temos as sinceras reflexões de um típico abastado do Brasil Imperial: um herdeiro rico que vive de rendas e nunca precisou trabalhar, mas que deseja títulos e se tornar político (nada mais atual). A dedicatória do livro foi endereçada aos vermes que lhe roeram o cadáver. A conclusão do livro é excelente e resolve bem a elegante crítica social sobre as contradições do país: uma elite que se dizia poética e liberal, mas que não dispensava os favorecimentos e a escravidão. 


Hilário, de fácil leitura, com a ironia esculpida num nível magistral, inteligente e brilhante. Para ser lido e relido.  

 

Motivos para ler:

1– Foi com Memórias Póstumas que Machado ascendeu profissionalmente, atingindo a excelência literária. De origem pobre, ingressou como jovem aprendiz na Tipografia Nacional, e lá foram-lhe reclamar ao chefe de sua baixa produção porque lia demais no expediente. O chefe, ao invés de adverti-lo, impressionou-se com o apetite literário do rapaz. Encorajado, virou jornalista, funcionário público exemplar e, enfim, escritor de primeiro escalão, chegando a presidir a Academia Brasileira de Letras;


2– Vale a pena conferir o divertido filme baseado no livro, com Reginaldo Faria, Marcos Caruso e Sônia Braga no elenco;


3– Por que Machado não é cultuado mundialmente? Pergunta comum. Mas as coisas estão mudando. Memórias Póstumas foi, em 2020, traduzido para os EUA e esgotou num só dia, atingindo o topo da categoria “ficção latino-americana”. Perceba ainda que o imaginário popular enxergava Machado branco, o que foi corrigido recentemente com a reconstrução de sua aparência real estampada na foto desta coluna. Encaixa-se bem aqui a brincadeira do “Brazil que não conhece o Brasil”. Oxalá que nós – e o mundo- (re)valorizemos este monstro literário. 

 


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


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