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Colunistas/Saúde e Beleza | 23/01/2021

A difícil tarefa de amamentar

Júlia Mendes é médica dermatologista e pediatra. CRM: 101090-SP / RQE: 32157/ RQE: 27484

Pixabay

Embora o ato de amamentar seja natural e biológico, muitos fatores influenciam em seu sucesso. 
Condicionantes sociais e culturais tornam a amamentação uma tarefa difícil. Mães de primeira viagem que estão enfrentando um o rito de passagem de mulher/mãe; quando sua autoconfiança está abalada quanto sua capacidade de amamentar; produção insuficiente de leite; dor e falta de manejo; falta de quem a quem a escute, compreenda, oriente e apoie, entre outras coisas são fatores que dificultam a amamentação. 
Amamentar corretamente não deve doer.


Para o sucesso da amamentação é necessário que: a mulher deseje, queira e possa amamentar; produza e libere o leite e um bebê com uma sucção eficaz seja capaz de retirar todo leite que necessita de sua mãe.

Desejar, querer e poder amamentar 


Não adianta a mulher querer e poder amamentar, ela precisa desejar no seu íntimo, lá, no fundo de seu coração e isso dependerá de condicionantes sociais, econômico, políticos-culturais e muito apoio. A mulher que quer amamentar está ciente de que faz o melhor para seu filho pois uma criança amamentada pouco adoece e dificilmente morre. Com a amamentação ela oferece um alimento padrão ouro com mais de 240 fatores bioativos além de assegurar um ótimo crescimento e desenvolvimento à seu bebê. O Leite Materno conta, na sua composição, com fosfolipídios como esfingomielinas; o aminoácido  taurina e ácidos graxos insaturados - todos nutrientes que favorecem a formação da estrutura e maturação do sistema nervoso central que tornam o bebê mais inteligente, com melhor desempenho acadêmico e maior ganho na vida adulta. 
Fatores que asseguram a imunidade fazem com que o bebê seja resiliente, isto é, forte para vencer principalmente as infecções intestinais, pulmonares, otite, má oclusão dentaria, obesidade. Além disso, ao amamentar, a mãe oferece seu olhar, cheiro, paladar, tato e voz - importantes sentidos para formação do caráter no futuro. Todas estas maravilhas estão cientificamente comprovadas.

 

Produção e liberação do leite materno


A produção de leite depende da integridade anatômica e funcional da mama. Dois hormônios fazem parte da produção de leite: a prolactina - aquela que faz a mama produzir o leite - e a ocitocina que faz liberar o leite produzido. Além de agir na produção do leite, a prolactina propicia também o relaxamento ou descanso para mãe. Por outro lado, a ocitocina é o hormônio do amor que ajuda tanto no vínculo e interação mãe-filho quanto contribui para o relacionamento entre os parceiros. 


O que estimula a produção desses hormônios é a sucção eficaz do peito. Quanto mais o bebê esvaziar o peito mais leite será produzido. 
A auto confiança também configura um fator importante na produção do leite. 
A mulher sempre produz mais leite do que seu filho necessita.

Sucção eficiente
Para que um bebê consiga retirar o leite do peito por meio de sucção eficiente são necessários pré-requisitos básicos como a integridade da parte anatômica e funcional da criança e que a primeira sucção seja no peito para que o bebê grave/fixe em sua memória este padrão de sucção.  
Por outro lado, é necessário que sua mãe o posicione para que ele faça a pega correta.
Além das estruturas íntegras para o bebê extrair o leite do peito, é importante que a mãe esteja relaxada e encontre uma posição confortável para amamentar. 
Também é necessário observar três pontos no bebê: o posicionamento do bebê, a pega e os movimentos que ele faz quando suga (reflexos).
Quanto ao posicionamento do bebê, observar quatro tópicos:
com a boca frente à região aréolo-mamilar
corpo - próximo ao da mãe
cabeça e corpo - alinhados
nádegas - apoiadas (se ainda pequeno)

Quanto à pega, também observar quatro tópicos: 
Boca - bem aberta
Lábio inferior – voltado para fora
Queixo – tocando a mama
Aréola – mais visível acima do que abaixo da boca do bebê

 SEQUÊNCIA DE UMA PEGA CORRETA
Estimular o reflexo da busca tocando a boca do bebê com a ponta do mamilo
Esperar que sua boca esteja bem aberta como se fosse bocejar


        
OS REFLEXOS DO BEBÊ 
Três são os reflexos do bebê:
Reflexo de busca e apreensão - sempre que o mamilo toca o lábio do bebê ele abre a boca, põe a língua para baixo e para fora e tenta abocanhar a mama;
Reflexo de sucção – quando o bico toca o céu da boca, ele começa a sugar;
Reflexo da deglutição – quando a boca enche de leite ele engole.
Observar se ele suga, engole e respira. Se mama até soltar. Só então, oferecer o outro peito. Se ele não aceitar, começar a próxima mamada por esse peito.
Toda mulher deveria sair da Maternidade confiante, sem sentir dor. Portanto com posicionamento e a pega correta para amamentar; com seu filho conseguindo retirar o leite de seu peito; sabendo aonde ir se tiver dificuldade quanto a amamentação; sabendo extrair leite de seu peito; sabendo como relaxar e, posicionar-se confortavelmente na hora de amamentar.
Para extrair manualmente o leite do peito, a mãe deve friccionar as palmas das mãos para energizar e massagear o peito com as palmas das mãos abrangendo toda mama. Com as polpas dos dedos massagear a aréola (parte escura da mama) de forma circular. Depois sacudimos o peito para o leite - que está como uma geleia no peito - se tornar líquido e facilitar sua saída. 
Rodear com o indicador e polegar entre a parte escura e clara da aréola e fazer a ponta dos dedos se encontrarem num movimento de abre e fecha, sem causar dor, até começar a sair leite. 
Assim, retirar o leite repetida e ritmicamente até que o peito esvazie. 
Evitar deslizar os dedos ou puxar o mamilo.


Uma mulher que amamenta seu filho(a) de modo exclusivo por seis meses e continua amamentar por dois anos ou mais deveria ser enaltecida, parabenizada, considerada uma vitoriosa pois ela foi capaz de superar todas as pedras de tropeços do caminho da amamentação.  Ela está construindo um mundo melhor tornando seu filho(a) um adulto feliz.


A OMS, Ministério da Saúde e as Secretarias de Estados de Saúde, considerando os benefícios tanto para o bebê como para mãe; ausência de evidências científicas da transmissão da COVID 19 e de outros vírus respiratórios por meio da amamentação recomendam a manutenção da amamentação durante a pandemia e que as mães sejam encorajadas e apoiadas a iniciar e continuar a amamentação. 
Os riscos da morbimortalidade associados a não amamentação e ao uso inadequado de outros leites devem ser fortemente considerados. (Notas técnicas 7-9 de 2020 e 3 da SES)

As principais condutas: 
Lavar as mãos antes de tocar no bebê ou retirar o leite; 
Usar máscara e trocá-la se: tossir, após notar que ficou úmida ou após as mamadas;
Caso a mãe portadora de COVID19 não se senta segura para amamentar, ela pode retirar seu leite e oferecê-lo ao filho (nota técnica 8/2020)

Keiko Miyasari Teruya - Pediatra, doutora em Medicina Preventiva pela USP; com curso de especialização em Aleitamento Materno na Wellstar San Diego Lactation Program; por mais de 33 anos.


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


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