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Colunistas/Fábrica de Textão | 26/01/2021

A lógica santista

Redator publicitário

Gabriel Sintoni Nabi

Tentando colocar em palavras o que só é possível sentir. Parabéns, Santos.

Não sei se você sabe, mas a lógica aqui em Santos não funciona como em outros lugares.

 

O interessante é que para quem é daqui, é desnecessário explicar isso. E para quem não é, fica quase impossível de entender.

 

Para começar, a gente é caiçara. Mas não só caiçara. Nós somos caiçaras de Santos. Tem diferença. Vai por mim.

 

“Vocês são paulistas?”

 

Quase. Quer dizer, também. Mas somos santistas. E não é questão de achar que isto é ser melhor. Nada disso. Mas é uma diferença no modo de ver e levar a vida, que fazemos questão de exaltar.

 

Como eu posso dizer? Aqui embaixo as coisas são diferentes (peguei emprestado e mudei um pouco, Biquini Cavadão).

 

Santos tem aquela atmosfera de uma cidade grande, desenvolvida, portuária. Mas com o espírito da criança de pé descalço na areia. De bermuda e chinelo, rodando a cidade toda de bicicleta. Bicicleta não, magrela. Aliás, isso é nosso também, a gente muda o nome de tudo. Dá um trabalho explicar pro pessoal lá de cima o que é mango, média, dois palitos, bagulho, pão de cará e tantos outros.

 

Ninguém entende. Não faz sentido. Quer dizer, faz sim. Na lógica santista.

 

A gente tem uma mesma avenida com quatro nomes diferentes. E não usa nenhum. Durante os mais de 7 km de extensão, a nossa avenida da praia é rebatizada quatro vezes. E a gente só chama de Avenida da Praia. Muito mais fácil, lógico.

 

E nela está o maior jardim de praia do mundo. O “nosso quintal”. Nosso museu ao ar livre é um local de batismo para quem é daqui ou veio morar e quer ser um legítimo santista: foto no leão e na leoa da praia.

 

Mais uma prova de que a lógica santista é diferente: a leoa é um jaguar. E não é um erro. Não pense com a lógica normal. Ela não faz sentido aqui. Lógica santista, cara. Aqui você pode ser o que quiser.

 

Falando em leão, o Macaé, nosso leão-marinho que chegou para ser tratado e ficou por aqui no Aquário, viveu mais do que qualquer leão-marinho jamais viveu em um aquário do mundo. Contrariando o quê? A lógica da natureza.

 

O time da cidade tem o apelido de “Peixe” e sua mascote é uma baleia, um mamífero. Maravilhas da nossa lógica.

 

Se procurar com o olhar comum não vai entender mesmo. Você precisa da lógica santista. Procure ver beleza, alegria.

 

Isso não quer dizer que não vemos o que não é belo e triste por aqui. Santos tem a maior favela de palafitas do Brasil, uma desigualdade enorme na área continental, os morros e a Zona Noroeste sofrem demais, principalmente com as chuvas, além de outros problemas, como o transporte público.

 

Isso não tem lógica. Não faz sentido. Não dá orgulho e precisa mudar logo.

 

A nossa lógica não é essa.

 

Nossa arte, de diversas maneiras, através de vários nomes, viaja para o mundo todo. Respiramos arte. Arte e esporte. Surf, tamboréu, canoa havaiana, esportes que nasceram nessa praia.

Pela lógica da lei da física, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Pela lógica da Vila Belmiro...

 

Aqui até o idioma tem uma lógica própria. A gente chama “você” de “tu”, mas com a conjugação do “ele”. Ficou confuso? É que pra gente é tudo nosso.

 

O nosso porto não é o maior ou mais importante da América Latina por conta de sua enorme movimentação de cargas. Nunca foi sobre cargas. Santos é o maior porto pelas vidas que aqui ancoram. É impossível atracar, nem que seja por alguns dias, e não querer pertencer a este lugar. Com todas essas nossas particularidades, não abrimos mão da hospitalidade e de manter nossas portas abertas. A todos.

 

E não importa mais para onde você vá ou onde você esteja, se você deixou sua âncora aqui, o nosso porto será sempre a sua casa.

 

Tem lógica, né?

 

 

 


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