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Colunistas/Cinema | 20/02/2021

Dica da semana: Relatos do mundo

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Reprodução

O filme desperdiça seu potencial em uma trama genérica que você esquecerá depois de assistir.

Interessante acompanhar essa mudança de estilo na filmografia do diretor Paul Greengrass. Conhecido por revolucionar os filmes de ação e espionagem, com a bem sucedida franquia Bourne, o diretor que tem como marca sua câmera frenética e inúmeras sequências de ação de tirar o fôlego, adentra pela primeira vez no gênero Western com um filme mais contemplativo e que apresenta a firmeza e sobriedade que o gênero exige. Apesar de apresentar uma história batida, previsível e com pouca ambição, o filme ganha força pela atuação do sempre ótimo Tom Hanks, que repete a parceria com o diretor após o tenso e impactante Capitão Phillips, mesmo não conseguindo alcançar o sucesso deste.


Em Relatos do Mundo, no ano de 1870, o Capitão Jefferson Kyle Kidd (Tom Hanks), um viúvo que já lutou em duas guerras, viaja através do Texas oferecendo notícias do mundo para as pessoas, apesar dos jornais estarem se tornando cada vez mais acessíveis. Ele aceita uma proposta para levar uma menina de 10 anos, Johanna, até seus familiares. Criada pela tribo Kiowa, ela não conhece sua família e tem um comportamento hostil com as pessoas ao seu redor, mas acaba criando um vínculo com Kidd, forçando os dois a lidarem com as difíceis escolhas sobre o futuro. Paul Greengrass nos apresenta aqui um filme de jornada, tanto física quanto emocional, como já vimos em diversas outras produções. O diretor não ousa e nem surpreende o público em sua abordagem, construindo um enredo engessado e repleto de acontecimentos genéricos. O que me deixou a impressão é que tudo foi milimetricamente pensado para a temporada de premiações e eu queria ver algo novo e desafiador. Sua direção não compromete, onde Greengrass controla bem o drama e a construção de seus personagens, e que cria uma tensa cena de embate contra assaltantes, mas a simplicidade dessa jornada e a falta de desafios faz com que não temamos pela vida dos protagonistas e a trama não tenha a urgência necessária para ganhar força e ritmo.


O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com Luke Davies, não é corajoso o suficiente para mostrar a que veio. Pelo contrário, é cuidadoso demais para não criar polêmicas, possui uma bela contextualização histórica que é usada apenas como pano de fundo e que inevitavelmente acaba perdendo destaque, possui um ritmo episódico que quebra o andamento do longa e uma dupla de protagonistas interessante, mas não inesquecível. Não me entendam mal, é um bom filme mas muito formulaico: protagonistas com passado triste e misterioso, menina raptada por nativos, trilha sonora grandiosa e uma sucessão de obstáculos padrão, que inclui até uma tempestade de areia. Tudo está lá para ser apreciado, mas não para ser sentido com vontade.


O filme se sai bem em seus aspectos técnicos, com uma pomposa direção de arte e recriação de época (cada cidade tem sua personalidade e características, um figurino que nos leva para aquele período aliado a uma grandiosa trilha sonora de James Newton Howard e uma belíssima fotografia de Darius Wolski completam a excepcional qualidade técnica do longa.


Não existe nenhum ator nesse mundo que consiga reproduzir a moral, uma pessoa incorruptível e com os bons costumes de um grande homem como Tom Hanks. O ator faz aqui o que faz de melhor e de maneira tão natural que parece que não está fazendo esforço algum. Apesar da pouca idade, a atriz Helena Zengel possui grande química com o ator, mesmo permanecendo boa parte do filme atuando apenas com os olhos.


Relatos do Mundo é um filme narrativamente agradável de assistir, visualmente belo e com grandes atuações mas me pareceu perdido no tempo e no que desejava contar. Não é um filme ruim, mas desperdiça seu potencial em uma trama genérica que você provavelmente esquecerá dentro de algumas horas após o término.


Curiosidades: O longa é baseado no romance homônimo escrito por Paulette Jiles.
 


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