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Colunistas/Livros e mais livros | 24/02/2021

Don Giovanni ou o dissoluto absolvido

Rafael Medeiros, Procurador do Município de São Paulo e ávido leitor.

A lenda de Don Juan pelas mãos de José Saramago.

Não se assuste com o nome do livro. José, espirituosamente, costumava dizer que seria um escritor fracassado se o sucesso de seus livros dependesse dos títulos escolhidos. De fato, o português não se preocupava em encontrar nomes “de mercado” para estampar suas obras. Basta ver o seu catálogo: Levantado do chão, Ensaio sobre a lucidez, Todos os nomes, Intermitências da Morte, e o mais esquisito de todos: este Don Giovanni ou o dissoluto absolvido. Nomes excêntricos para livros extraordinários. 

 

Se o título é curioso, a estória nele contada é conhecida de todos: é a lenda de Don Juan, o conquistador de corações, o sedutor libertino. Ao contrário do imaginário brasileiro –cá adotamos o nome Juan-, em Portugal o personagem teve o nome vertido, tornando-se Don Giovanni. Este livro mostra outra faceta de Saramago: o teatro. Arriscou-se a reescrever o mito de Don Juan, já trabalhado por tantos artistas consagrados, e entregou esta peça genial aclamada pela crítica. Tudo o que fez de José um Nobel de Literatura está lá: a fina ironia, a graça, o arsenal virtuoso da língua, as metáforas poderosas.

 

Tudo começa com a insólita visita do Comendador, que vai ao encontro de Giovanni para vingar sua filha, indevidamente seduzida pelo libertino. Insólita porque o Comendador já morreu: quem vai à casa de Don Juan é o seu espírito, habitando uma estátua, para lhe rogar uma maldição. Daí em diante as personagens desfilarão diálogos impagáveis, os fatos renderão incríveis consequências (destaque para o “sumiço” do famoso livro com os nomes de todas as mulheres conquistadas) e o encaminhamento para o final perfeito, quando o mito se desfaz e Don Juan se torna, enfim, apenas Juan. Para a sua própria felicidade. 

 

 

Motivos para ler:

 

1– José Saramago é presença constante neste espaço. Já dedicamos uma coluna ao seu Ensaio sobre a cegueira e costumamos cotejar sua vida e obra com outros escritores. Único prêmio Nobel da língua portuguesa (por que não cansamos de repetir isso? Porque esse prêmio fez-nos crescer 3 centímetros, o que já é muito), José resolveu se dedicar à literatura depois dos seus 50. Dizia ele: tive sorte. Dizemos nós: sorte a nossa. É nosso escritor favorito;

 

2– O Don Juan – ou Giovanni – de Saramago se diferencia dos demais porque a intenção foi desconstruir seu mito. Para José, Don Juan “não seduziu uma única mulher em toda a sua vida”. Viveu sob sua fama, mas nenhuma das inúmeras mulheres que lhe caíram às mãos verdadeiramente se encantou. Enfim, viveu numa mentira, mas José deu-lhe a chance de se redimir, e Juan aproveitou. Note como isso acontece em nossos dias: quantos mitos vemos por aí, desfilando pomposamente, discursando como se grandes e elevados homens fossem, quando, no fundo, esses mitos não passam de um grande e vazio engodo da pior qualidade humana possível;

 

3– A lenda de Don Juan rendeu inúmeras obras nas artes em geral: Mozart escreveu a ópera Don Giovanni; Lord Byron redigiu o épico poema Don Juan; Johnny Depp e Marlon Brando estrelaram o filme Don Juan DeMarco; Delacroix assinou o quadro O naufrágio de Don Juan, exposto no Louvre. Essa lista foi enriquecida com o Don Giovanni ou o dissoluto absolvido de José Saramago.

 

 

 

 

 


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