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Colunistas/Cinema | 06/03/2021

Dica da semana: No coração da escuridão

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Reprodução

Extremamente poderoso e eficaz em transmitir questionamentos filosóficos e sociais.

"Uma vida sem desespero é uma vida sem esperança", diz o personagem de Ethan Hawke para uma determinada pessoa insatisfeita com o mundo e à beira de um colapso mental. Quando Paul Schrader criou o personagem Travis Bickle, protagonista do clássico Taxi Driver de Martin Scorsese, talvez não tivesse a dimensão e força que esta persona teria em sua filmografia. Em No Coração da Escuridão, o diretor convoca o espectador a praticamente sentar no confessionário e testemunhar os dramas de um depressivo e atormentado padre que carrega uma cruz maior do que a consegue suportar, não medindo esforços para falar sobre a perda absoluta da fé e trazendo discussões complexas sobre como vivemos à base de razões para viver.


No filme, o ex-militar capelão Toller (Ethan Hawke) sofre pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando ele faz amizade com a jovem paroquiana Mary (Amanda Seyfried) e seu marido, que é um ambientalista radical. Toller logo descobre segredos escondidos de sua igreja com relação a empresas inescrupulosas. Inegavelmente melhor roteirista que diretor, Paul Schrader tem aqui seu melhor filme disparado. Optando por uma fotografia no formato 4:3, que comprime os personagens na tela, o diretor escolhe ambientar seus personagens no frio e na neve, com a curiosa escolha de investir em planos simétricos e com pouquíssimos objetos em cena, sempre colocando em perspectiva a relação entre a grandiosidade do mundo e a pequenez de Toller, construindo uma competente e eficiente transição entre o drama e o thriller. Adianto que não é um filme fácil, seu ritmo é lento e seu tom é melancólico, porém é extremamente poderoso em seu propósito e eficaz em transmitir questionamentos filosóficos e sociais. O diretor acerta ao se desprender de um claustrofóbico realismo melancólico em duas belas cenas onde utiliza um pontual recurso fantástico explorando a intimidade de Toller em uma cena na metade e outra no final do filme, onde incomoda e consegue demonstrar toda sua força e poder.


O roteiro do filme é um grande estudo de personagem e o que começa parecendo uma obra que atira para todos os lados, acaba se justificando com uma sutileza avassaladora ao por na mesa discussões tão atuais e complexas, relacionando com perfeição temas como questão ambiental, posicionamentos políticos, as grandes empresas por trás das igrejas e a angustiante desconfiança de um homem naquilo que estava acostumado a acreditar. O texto também requer paciência, pois analisa cuidadosamente cada passo dado pelo protagonista, suas motivações e o resultado de suas ações mergulhando em seu psicológico em um arco carregado de sentimentos conflitantes.


No quesito técnico, o recurso estético adotado, além de trazer uma fotografia com uma atmosfera sufocante e claustrofóbica é também belíssimo em sua concepção visual realçado também pelo ótimo design de produção, que transmite um forte sentimento de melancolia e solidão as cenas, trazendo cores vivas apenas em momentos pontuais.


E é justamente com essa direção firme que o diretor explora diversas facetas através do protagonista: desilusão com o mundo e com o homem, hipocrisia da igreja, problemas ambientais, fragilidade e a condição humana. Tudo isso, retratado de forma excepcional pela atuação de Ethan Hawke, que entrega aqui a melhor atuação de sua longa carreira, permeada por nuances e sutilezas dando vida a um homem quebrado e totalmente sem esperanças. Completando o elenco, vale citar a atuação de Amanda Seyfried que, mesmo com pouco tempo de tela, consegue exprimir complexas emoções ao público.


No Coração da Escuridão consegue transmitir um grande incômodo fazendo com que o público reflita sobre suas hipocrisias, problemas ambientais e sua própria existência. Inserindo tudo isso dentro de um cenário religioso, Paul Schrader destila diversas opiniões sobre o sistema sujo e corrupto de diversas instituições estabelecendo de forma impactante as dimensões sobre a condição humana e nosso lugar no mundo.


Curiosidades: Ethan Hawke ganhou o prêmio de Melhor Ator no Independent Spirit Awards.
 


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