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Colunistas/Fábrica de Textão | 15/03/2021

Carta ao futuro. De nós, seu pretérito (completamente) imperfeito.

Redator publicitário

Pixabay

Desculpa. Assim, já logo de cara.

Você que está chegando aí na frente, que começará a partir do que foi feito aqui atrás, nos desculpe.

 

Falhamos miseravelmente quando nos foi dada a oportunidade de ser você. De ser o futuro. Precisamos de você agora. No seu hoje, neste nosso amanhã.

 

Pois é, por anos falaram que seríamos nós. Que chegaríamos lá. Ou seria aí? Só sei, agora que estamos aqui, que não chegamos.

 

Talvez o problema seja a responsabilidade, saca? Não sabemos lidar com ela. Muita carga e pressão do que deveríamos ser. Não fomos.

 

Era para pensar no planeta que deixaríamos para nossos filhos. E nos filhos que deixaríamos para o nosso planeta. Não pensamos. Tivemos medo, “pipocamos” e fomos omissos. Omissos sob a máscara da prepotência, da arrogância e da soberba, típicas do presente. Máscaras... como está sendo aí sobre isso?

 

O erro do presente é acreditar nos elogios. Sentar-se no sofá, abraçado a eles, com a certeza de que não precisa fazer nada. De que não precisará, no futuro. Aconteça o que acontecer, sempre saberá o que fazer.

 

Todas as gerações se sentem mais importantes, sábias e preparadas que as anteriores. E, em teoria e por lógica, o são. Sua caminhada já se inicia de um ponto mais à frente. O seu primeiro passo é exatamente no fim da longa caminhada de alguém.

 

Por isso, não cometa nossos erros.

 

Crescemos ouvindo o Cazuza nos alertar sobre os riscos de se repetir o passado no futuro. Um ano depois e continuamos fazendo as mesmas coisas. Há décadas fazemos as mesmas coisas. Não aprendemos nem com os erros.

 

Nós conseguimos errar, inclusive, quando víamos nosso futuro no meio do presente dos outros. Ficou confuso? Veja a Terra girando. Tínhamos um delay que poderia nos dar tempo para pensar, para agir. Não pensamos. Não agimos. Acreditávamos que não chegaria. Que se chegasse, não seria como nos outros. E que se fosse, saberíamos como fazer.

 

Chegou. Foi. Não soubemos.

 

E agora a ordem do tempo se inverteu. Sei lá se mexemos no eixo da Terra e conseguimos interferir na relação espaço-tempo, mas se inverteu.

 

Hoje, falando aqui do meu presente, nós somos o futuro do resto do mundo. Um futuro de como eles seriam e real para como nós somos. Viramos realmente a referência. Somos o que deu errado. O que fez errado. Somos a imagem do que teria sido. Somos o futuro do pretérito.

 

Viramos uma ilha de um futuro péssimo em meio a um presente ruim. Estranho falar assim, né? Você não imagina como é viver nisso, cara.

 

Honestamente, eu não sei como a gente vai te entregar esse teu passado aqui. Não dá para chamar isso de presente.

 

Mas, infelizmente (ou não), terei que fazer contigo o que fizeram com a gente. Terei que confiar que você fará diferente. Que fará melhor. Que confirmará as expectativas positivas.

 

E como todo velho tolo, deixo um conselho: seja presente de verdade.

 

Não existe outro momento em que algo realmente possa feito. Ser do futuro é coisa de quem só espera, achando que saberá.

 

Agora já é passado e não soubemos.

 

Desculpe, mais uma vez.

 


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