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Colunistas/Cinema | 27/03/2021

Dica da semana: Colateral

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Reprodução

Colateral não se iguala as obras do auge de Michael Mann, mas é uma trama tensa e cheia de energia.

O competente cineasta Michael Mann é responsável por dois dos melhores filmes da década de 90: O Informante e sua obra prima Fogo Contra Fogo, este último protagonizado por ninguém mais ninguém menos que Al Pacino e Robert De Niro, o qual eu considero o melhor filme policial de todos os tempos. Após apresentar a cinebiografia de Muhammad Ali, que apesar de não ser um filme ruim, não foi bem aceito pela crítica na época, deixando seu próximo longa Colateral com grande expectativa. Michael Mann sempre se destacou por duas marcantes características: o desenvolvimento de seus personagens e a força de seus quadros e únicos movimentos de câmera, onde opta como de costume manter a câmera na mão, conferindo sempre energia e tensão a sua narrativa. Lançado em 2004, Colateral acabou se sobressaindo de outras produções, não por méritos próprios, mas por eliminação, pois aquele foi um ano muito fraco para o cinema. Mesmo assim, o filme tem suas qualidades.


No filme, Max (Jamie Foxx) trabalha como motorista de táxi há 12 anos, já tendo levado os mais diversos passageiros a todos os locais de Los Angeles. Porém, em uma noite aparentemente tranquila, ele encontra Vincent (Tom Cruise), um homem que pega o táxi como se fosse um passageiro qualquer. Porém, Vincent é um assassino de aluguel, que está na cidade para completar o plano de um cartel do narcotráfico, que está prestes a ser condenado por um júri federal. Vincent precisa matar 5 testemunhas-chave do processo e conta com Max para fugir da polícia local e do FBI, logo após cometer os assassinatos. Obrigado a seguir as ordens de Vincent, Max precisa ainda lidar com a possibilidade de ser morto por seu passageiro a qualquer momento, já que Vincent pode usá-lo para proteção pessoal. Iniciando seu longa de forma promissora, estabelecendo bem a personalidade de seus dois personagens principais, Michael Mann opta por usar um tom mais realista e cheio de energia, através de diversos planos com câmera na mão e com enquadramentos que priorizam os close-up, aproximando constantemente seus personagens ao público. O diretor ainda mostra que não perdeu a mão para as cenas de ação, seja na tensa e bem executada cena na boate ou a sequencia final no metrô, Mann une qualidade com diversão como poucos. 


Porém, o roteiro de Stuart Beattie tira um pouco o brilho do diretor ao trazer um texto cheio de obviedades ou coincidências absurdas, o que prejudica o potencial que o filme tinha. O desenvolvimento da dupla de protagonistas sofre com diálogos decepcionantes e expositivos onde simplesmente torna-se impossível aceitar que um taxista é posto como refém de um matador e consegue conversar de forma descontraída com este. Apesar destas falhas, o roteiro constrói um arco interessante para Max, que apresentado inicialmente como uma pessoa que temia a mãe e tinha vergonha para pedir o número de telefone de uma moça, transforma-se em um personagem forte e cheio de lábia.


A fotografia do longa é belíssima, rodada a maior parte do tempo com equipamento digital de alta definição (algo que o diretor viria a fazer com maestria em Miami Vice, de 2006) e apresenta uma Los Angeles noturna de maneira impressionante, combinando o glamour das luzes com o granulado dos guetos escuros. 


Outro grande mérito da direção do filme está na escolha de seu elenco. Apesar de desperdiçar um grande ator como Mark Ruffalo, que não possui desenvolvimento e em sua última cena não deixa a impressão forte que deveria, o filme tem sua força em seus dois protagonistas. Jamie Foxx já provada ter talento de sobra para contracenar com um astro como Tom Cruise sem se deixar ofuscar como também conseguir segurar um filme sozinho apenas com seu carisma. Já Tom Cruise tem aqui talvez, a atuação mais contida de sua carreira, com uma voz sempre tranquila, que ressalta sua objetividade e frieza ao lidar com as situações.


Colateral não se iguala as obras do auge de Michael Mann, mas vale a pena ao trazer uma trama tensa e cheia de energia e serve também para o público conhecer o trabalho deste excelente diretor, o qual aguardo sempre com ansiedade seu próximo projeto.


Curiosidades: Cerca de 80% das imagens filmadas em Colateral foram capturadas através de câmeras digitais.
 


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