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Colunistas/Livros e mais livros | 07/04/2021

Klara e o Sol

Rafael Medeiros, Procurador do Município de São Paulo e ávido leitor.

Sobre humanos, máquinas e o amor.

O Prêmio Nobel de Literatura é um divisor de águas na carreira de um escritor. Se por um lado coroa toda a produção intelectual do autor até o recebimento do galardão, de outra parte gera imediata expectativa sobre o seu próximo livro. Klara e o Sol saiu do prelo e  chegou às livrarias brasileiras em março deste ano. É o primeiro romance de Ishiguro após sua consagração em 2017


Neste romance, o autor entrega um mundo novo, muito semelhante ao nosso, mas com um sutil toque de distopia que vai se revelando aos poucos ao leitor. É a estória de Klara (uma robô dotada de inteligência artificial) desde a sua “vida” na loja à espera de um comprador até finalmente ser arrematada pela família de Josie, a quem devotará toda a sua atenção e amor. Tudo se passa em circunstâncias mais ou menos nebulosas, até que os horizontes da narrativa se abrem e o leitor – certamente espantado – entenderá os motivos pelos quais a família resolveu adquirir um robô humanoide. 


Ishiguro demonstra e justifica todo o seu talento ao construir a trajetória de Klara: de um momento inicial mais neutro, ela passará a captar cada vez mais sensações humanas e, graças à sua capacidade diferenciada de percepção, chegará ao ponto de, talvez, gerar sentimentos próprios e conclusões íntimas – sua relação com o Sol, que atravessa todo o livro e resolve a trama, é particularmente lindíssima. É preciso muita habilidade para formatar um livro assim sem cair em clichês, e Ishiguro dominou tudo tranquilamente. Em nenhuma linha o leitor se sentirá lendo ficção científica ou coisa do gênero; muito ao contrário: é uma estória sobre a natureza humana, o sacrifício, a ternura, a empatia e o amor, tudo permeado por uma suave melancolia que, aliás, é bem típica do autor. 


Belo e muito comovente. Kazuo Ishiguro foi impecável. 

 

Motivos para ler:


1– Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki e radicou-se na Inglaterra. É um escritor muito contido, com poucos livros publicados. Parece pertencer àquela safra de escritores que gostam de meditar e amadurecer bastante suas ideias antes de lançá-las ao público. Dele indicamos, além da obra em comento, os incríveis “Os vestígios do dia” e “O gigante enterrado”. Foi merecidamente laureado com o Prêmio Nobel em 2017;


2– Poder-se-ia argumentar que este enredo já foi exaustivamente abordado e o livro representaria apenas mais uma colaboração para o tema. Ledo engano. Livros e filmes que trataram da inteligência artificial normalmente o fizeram num forte ambiente de ficção científica e colocaram as questões morais e éticas daí decorrentes de uma forma sempre muito parecida. Nada a ver com Klara e o Sol. Esta não é mais uma estorieta de um robô com inteligente artificial em busca de sua realização ou algo que o valha. É muito melhor do que isso;


3– É interessante meditar sobre algumas questões laterais que o autor apenas joga no ar ao longo do livro. Não são esclarecidos os reais contornos e modos de viver dessa nova sociedade, certamente com o intuito de provocar o leitor a questioná-los. O que, afinal, significaria a existência de crianças “elevadas” e “não elevadas” e a criação de comunidades tão específicas? Haveria mesmo algo de especial em humanos que não poderia ser replicado pela tecnologia? As obras de maior envergadura normalmente funcionam assim: ao lado de uma excelente estória crescem sólidos debates. 
 

 

 


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