Rádio Jornal da Orla/Digital Jazz

Ouça agora

Colunistas/Fábrica de Textão | 05/05/2021

Quando as cortinas se fecham antes da hora

Redator publicitário

Somente os aplausos podem quebrar o silêncio.

A gente chegou no cinema e na hora de comprar as entradas, percebeu que tinha perdido a sessão. Não lembro exatamente qual foi a confusão que eu e minha namorada fizemos com os horários, mas era algo tão bobo, tão ridículo, que já valeu umas risadas na fila mesmo. “Vamos ver qual filme tem pra agora.”

 

Os trailers antes de “Minha vida em Marte” nem tinham começado e nós ainda ríamos de nós mesmos, de uma coisa boba, de algo que acontece com todo mundo a todo o momento. Na verdade, a gente gosta mesmo é disso, de rir da gente, do nosso cotidiano.

 

O filme? Exatamente isso.

 

Ao sair, conversamos:

 

“Muito bom, né? E você reparou como fica completamente diferente quando tem o Paulo Gustavo na cena? O filme é engraçado, mas uma simples cena sobe muito de patamar só de ter o cara. Impressionante. E ele puxa os outros atores também. O cara transforma o ambiente.”

 

Tem gente que é assim, não é? Faz você rir sem precisar falar nada. Faz você se divertir só de aparecer. Faz você sentir-se bem, sem nem ao menos conhecê-lo.

 

E te deixa triste quando se vai, como se fosse alguém próximo, alguém da família.

 

Quantas mães não couberam dentro da Dona Hermínia? Quantas risadas altas não saíram ainda mais escrachadas, junto com “eu sou exatamente assim” ou “minha mãe falava justamente isso”?

 

Quantos da nossa geração não se identificaram com o jeito acelerado, hiperativo, ligado no 220v? Vivendo com pressa, com empolgação, com intensidade.

 

A vida é muita curta para se reduzir a voltagem.

 

A gente não precisava de mais um motivo para não sorrir. Não hoje. Não ultimamente.

 

No dia em que, mais uma vez, tantas famílias não puderam dizer tchau na despedida, no dia em que uma notícia brutal com crianças nos deixou atônitos, neste dia, o que a gente menos precisava era dormir com essa.

 

Uma notícia tão absurda, tão ofensiva, que nem mesmo a própria Rainha dos Absurdos teria coragem de falar.

 

O certo era chorar de tanto de rir. Aquela risada de fazer a barriga doer, de ficar vermelho e até faltar ar. Mas essa doença não deixa. Essa doença sufoca o nosso sorriso, escondendo-o de baixo da máscara.

 

Essa doença não tem a menor graça.

 

O humor é um remédio que se dá para a alma. Alivia, libera hormônios, cura, traz esperança. Transforma momentos, vidas. E, como ele mesmo disse, é um ato de resistência.

 

Então tá bom. Hoje tá difícil, tem sido bem difícil ultimamente, mas a gente vai continuar. Como resistência. Como forma de dizer que não vai aceitar que as coisas não melhorem e que o riso e a alegria transformarão tudo de novo.

 

Quem sabe. Vai que cola, né?

 

Hoje eu entendo melhor aquele dia em que confundimos a sessão. A gente não perdeu a hora, a gente ganhou um momento inesquecível.

 

Obrigado pelas risadas, Paulo Gustavo.


Leia também