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Cotidiano/Comportamento | 08/05/2021

Instinto materno não existe

MARCO SANTANA - DA REDAÇÃO
Reprodução/People

Para quem gosta de romantizar o amor que a mãe nutre pelos filhos, aqui vai um banho de água fria: o instinto materno não existe.


O instinto materno seria a conquista uma afeição automática e intensa pelo simples fato de a mulher ficar grávida e depois dar à luz. Mas isso não acontece, nunca aconteceu.


Diversos estudos científicos buscaram investigar os mecanismos psicológicos, culturais e fisiológicos que movem uma mulher a se dedicar de modo tão incondicional a seus descendentes e concluíram que o afeto materno nada tem de fisiológico e sim é uma construção psicológica e cultural. Dar à luz não significa, necessariamente, que a mulher vá cuidar do novo ser, de seu nascimento até a idade em que puder ele ser independente. 


“Trabalhos de antropólogos e sociólogos que estudam a maternidade nos tempos antigos verificaram que em determinadas épocas era comum abandonar as crianças. Os bebês eram colocados em instituições ou dados para serem criados, e poucos sobreviviam. Não só as famílias carentes faziam isso, mas também as ricas”, explica a psicóloga Maria Tereza Maldonado, mestre em Psicologia Clínica pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro, integrante da Academia Americana de Terapia de Família e da Associação Mundial para a Saúde Mental Infantil.


A partir do século XV, era comum igrejas e conventos terem a “Roda dos Enjeitados”, ou “Roda dos Expostos”, onde recém-nascidos eram abandonados, com a garantia do anonimato das mães e famílias.


Até hoje é comum o abandono de recém-nascidos ou casos de crianças maltratadas, espancadas e até mesmo assassinadas —quando a mãe não é a autora do crime, ela se omite. 


Também durante muito tempo era frequente as crianças fossem enviadas para colégios internos e as mães acompanhavam todo o desenvolvimento da cria como uma mera espectadora. 


Amor materno
Pode não existir instinto materno, mas o amor materno é incontestável. Mas ele não surge do nada, e sim é construído, a partir do interesse e disponibilidade da mulher — biológica, adotiva, da avó, da tia ou de quem estiver desempenhando a função materna. 


“O instinto materno seria verdadeiro se a mulher tivesse em seu equipamento biológico algo que a levasse a amar automaticamente seu filho. E ela não tem. Algumas mulheres pensam ter porque começam a amar seu filho ainda na gestação, se encantam só de pensar em tê-lo”, explica a psicóloga Maria Maldonado. “O amor é construído no seu psiquismo. O mesmo mecanismo afetivo acontece nas adoções. O casal não consegue ter filhos e decide adotar. Então, o homem e a mulher passam a construir o amor por essa criança, antes mesmo de conhecê-la. Tanto que quando um casal conhece a criança acontece o que se chama “amor à primeira vista”. E não é. Esse amor vinha sendo construído há meses, anos. O amor, assim como um feto, também é gestado”, completa.

 

A arte inspira a vida
Uma das interpretações mais marcantes da carreira da atriz Sandra Bullock foi no filme “Um sonho possível” (2009), no qual ela interpreta Leigh Anne Tuohy, uma mulher que assume uma relação maternal com um jovem negro, que se revela um grande talento esportivo. Na vida real, a atriz tem dois filhos não-biológicos. “Vamos apenas nos referir a essas crianças como nossos filhos. Não diga ‘meu filho adotivo’. Ninguém chama uma criança de meu ‘filho de fertilização in vitro’ ou meu ‘oh, droga, fui ao bar e fiquei grávida por acidente’. Vamos apenas dizer ‘nossos filhos’”.

 


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