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Colunistas/Cinema | 15/05/2021

Dica da semana: Oxigênio

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Reprodução

O filme, infelizmente, vive e morre em cima de suas revelações e reviravoltas.

O cinema vive de ideias originais, adaptações ou inspirações em filmes que deram certo no passado. Oxigênio, nova ficção científica original da NETFLIX, aposta em uma série de temáticas populares para tentar algo de certa forma original, utilizando elementos já vistos diversas vezes em outras produções: o foco na claustrofobia, pistas sobre o passado do protagonista e a busca pela identidade. Ao invés de seguir a linha do "menos é mais", Oxigênio infelizmente vive e morre em cima de suas revelações e reviravoltas, onde vai aos poucos se expandindo de uma forma que, a premissa inicial de sobrevivência acaba senso sabotada por sua ambição e ficando em segundo plano.


Em Oxigênio, presa dentro de uma câmara criogênica, uma mulher deve agir com precisão e calma para conseguir escapar. Quanto mais o tempo passa, mais desaparece o oxigênio e mais diminuem suas chances de sair dali com vida. O filme é dirigido pelo francês Alexandre Aja, que já havia demonstrado suas habilidades em ambientes claustrofóbicos no tenso Predadores Assassinos, mas que aqui atinge um novo patamar, pois para manter a atenção do público por quase duas horas em um único ambiente não é das tarefas mais fáceis. Abrindo o filme de dentro de uma câmara criogênica, o diretor deixa o público com uma sensação imensa de claustrofobia, construindo sua trama com criativos movimentos de câmera e usando espaços minúsculos para filmar suas cenas aliando revelações surpreendentes ao espectador, como na sequencia que "gira" de maneira belíssima culminando em um dos olhos da protagonista ou ao bagunçar com a nossa mente ao sugerir que parte do que está acontecendo podem ser de alucinações da mulher. Do início ao filme, Alexandre Aja instala um alto nível de imersão criando uma tensão absurda em relação à porcentagem do oxigênio que vai se esgotando.


O roteiro, escrito pela estreante Christie LeBlanc, tem boas idéias e um início desesperador e apesar de pecar pelo excesso, especialmente em seu segundo ato, possui uma variedade de revelações capazes de manter o público engajado até o fim. Em diversos momentos, o roteiro fará com que o público pense que está sendo levado para um caminho óbvio e é justamente neste ponto que o filme revela que sua resolução é bastante surreal, o que foge de sua proposta inicial, que era mais intimista e cheia de incertezas, consolidando seu desfecho em uma resolução grande, exorbitante e de uma forma inimaginável.


Sozinha em cena praticamente o tempo inteiro (há flashbacks pontuais para que o espectador se situe aqui e ali), Mélanie Laurent, mais conhecida por seu trabalho em Bastardos Inglórios, entrega uma atuação visceral justamente por estar limitada fisicamente em um espaço minúsculo. Se Oxigênio funciona, é por causa dela onde dou destaque para a cena da ligação para sua mãe. Outro ponto que vale destacar é o trabalho de voz do conhecido ator francês Mathieu Amalric, com um interessante trabalho de voz da inteligência artificial que vai se demonstrando não tão amigável quanto aparenta.


Oxigênio talvez divida a opinião do público, mas que claramente caminha fora de sua zona de conforto com um desfecho ousado, mesmo com um drama demasiadamente mecânico e que pouco se aproxima de uma experiência real. No fim, restará um passatempo eficiente mas esquecível.


Curiosidades: Oxigênio foi rodado durante a pandemia seguindo os protocolos de segurança.
 


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