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Colunistas/Medicina e Saúde | 21/05/2021

Acostumem-se, ele veio para ficar

Marcio Aurelio Soares é médico sanitarista

Temos que refletir sobre o que consumimos, nos perguntado qual o impacto deste consumo.

Faz mais de um ano, para ser mais preciso, 1 ano e três meses que a Covid-19 chegou entre nós. Inicialmente, não tínhamos a dimensão real do problema que iríamos começar a enfrentar. Uns subestimaram o diagnóstico de virose. Como se virose fosse um diagnóstico tirado das mangas do jaleco dos médicos quando não tínhamos outra resposta a dar aos nossos pacientes. 


O Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19 – “Corona Virus Disease – 2019”, em inglês, foi identificado oficialmente pela primeira vez em 12 de dezembro, na cidade de Wuhan, na China. O primeiro artigo científico, publicado semanas seguintes por pesquisadores chineses, dava conta de um paciente de 41 anos atendido no Hospital Central de Wuhan no dia 26 de dezembro de 2019. Foi identificado um vírus com a estrutura semelhante à dos coronavírus causadores da sars – síndrome respiratória aguda grave, e mers – síndrome respiratória do oriente médio. A sars foi descrita em 2003, também na China, a partir de casos ocorridos na cidade de Guangzhou. Estima-se que neste surto foram infectadas quase 9 mil pessoas e levado quase 800 pessoas a óbito. A mers, foi detectada em 2012 na Arábia Saudita, e, desde então, manteve-se restrita ao oriente médio. Neste caso, o provável reservatório do vírus fonte de transmissão para humanos são os camelos. A apresentação clínica das doenças relacionados à família coronavírus não difere muito das demais viroses respiratórias, a não ser pela gravidade dos sintomas e sua progressão rápida para pneumonia, síndrome de desconforto respiratório, insuficiência renal e distúrbios da coagulação.


Minha intenção aqui está longe de querer escrever um “tratado” sobre as coronavisores, mas mostrar que essas doenças tinham como hospedeiros naturais animais que, de uma forma ou de outra, os humanos tiveram contato. Morcegos, camelos, macacos, e outros, têm a condição natural de conviver com muitos vírus sem causar-lhes qualquer mal. Os vírus, grosseiramente, não passam de um pedaço de proteína que não têm capacidade de se reproduzir e se propagar se não estiverem no interior de uma célula, numa relação parasita. E quando isso acontece, o material genético virótico assume o comando desta célula, fazendo com que haja a sua reprodução, às centenas, em questão de minutos.  Além disso, os vírus têm uma tremenda capacidade de mutação e adaptação a novos ambientes vivos. Essa é a chave-mestra  para burlar nossa capacidade natural de reação por meio de nosso sistema imune. 


Atualmente sabemos muito mais sobre o sars-cov-2 do que há um ano. Se foram necessários quatro anos para o desenvolvimento da vacina contra a caxumba, até então a vacina mais rapidamente desenvolvida, há quatro meses, mesmo com os atrasos impostos por um burocracia estatal politizada estamos testemunhando emoções guardadas em imagens de pessoas sendo vacinadas.  


Tiramos duas grandes lições desses momentos de trágica vivência. Os recursos planetários são finitos. A expansão da ocupação humana em territórios silvestres e selvagens nos expõe a um ecossistema inóspito e nos obriga a adaptá-los a nós. Isso tem grandes riscos. Sua destruição. Sua, minha e do planeta. O mundo discute sobre isso desde a Conferência de Estocolmo de 1972, passando pela Eco-92, no Rio de Janeiro, Rio+10, Rio+20, Acordo de Paris, até a Cúpula Internacional sobre o Clima, ocorrida recentemente nos Estados Unidos. Não temos alternativa. Temos que recuar; refletir sobre o que consumimos, nos perguntado qual o impacto deste consumo sobre o planeta e nossas vidas. 


Este vírus existe. Ele muda e se adapta. Seus limites ainda são desconhecidos. A  nossa vitória depende de nós. E esse é um grito de guerra, pois estamos em plena batalha. 


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