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Colunistas/Medicina e Saúde | 29/05/2021

Escrever e coçar, basta começar!

Marcio Aurelio Soares é médico sanitarista

A sarna não é considerada um problema de saúde pública pelas autoridades sanitárias.

Inspirando-me na famosa frase de Glauber Rocha, digo que com uma caneta na mão e uma ideia na cabeça, podemos construir várias orações e, ao final, um texto. Adaptando-me aos novos tempos, e nem tão novos assim, diria que, uma tela e um teclado  são recursos suficientes para transcrevermos nossas ideias. É preciso uma pouco de coragem, é verdade. Ousadia, desinibição, não ter medo do ridículo; talvez. E, certamente, uma boa autocritica. Mas o principal é gostar. Gostar de conversar, de escrever; mostrar ao outro a sua ideia e se sentir feliz em compartilhá-la. Daí porque o retorno à leitura é um “alimento” fundamental para quem escreve. Gostei, não gostei. Mentira. Ninguém gosta de ouvir “não gostei”. Caso isso aconteça, leitor, seja um pouquinho cuidadoso. Não sei se conseguiria ouvir uma avaliação tão cruel; ou verdadeira. Enquanto ninguém reclama, continuemos a escrever. Além da medicina, faço isso há 35 anos. Já enfrentei uns narizes tortos, uma caras franzidas, com um “sua crônica não estava ruim, não”. Hummm, que péssimo! Pensei eu. Mas nada tão forte que me desestimulasse a continuar “escrevinhando” e inventado palavras. Não foram tantos livros, apenas três, escritos por mim. O quarto está em gestação, e a termo. Acredito que seja de parto natural, acontecendo no tempo certo, e sem fórceps. 


Coçar, não é diferente. Começa com um ato impensado, automático. É resultado do prurido, popularmente conhecido como coceira, que pode surgir em decorrência de um pequeno estímulo passageiro e autolimitado, ou até, como uma crônica muito mal escrita, resultar em profundas escoriações na pele, e estas se transformarem em perigosas feridas bacterianas. Em sua grande maioria, as coceiras são benignas e não vão causar-lhes mal algum. Não entanto, em outros casos, se persistentes principalmente, podem ser resultados de alergias, psoríase e...sarna. Maldita sarna! Não à toa a expressão, “não vá arrumar sarna para se coçar” significa um aviso para não arrumar problema. Apesar de Montaigne,  filósofo humanista do segunda metade do século XVI ter dito que “coçar é uma das mais doces gratificações da natureza, e está sempre ao alcance da mão”, a coceira pode sim se transformar numa grande problema. 

 

A sarna, também chamada de escabiose tecnicamente, não é considerada pelas autoridades sanitárias um problema de saúde pública. Um erro. Causada pelo ácaro Sarcoptes scabei o contágio se dá somente entre humanos, por contato direto entre as pessoas, roupas ou outros objetos contaminados. A fecundação do ácaro ocorre na superfície da pele. Depois que o macho morre, a fêmea penetra na pele cavando túneis. Depositam seus ovos e, quando eles eclodem, liberam larvas que retornam à superfície da pele para completar seu ciclo evolutivo que se completa em mais ou menos vinte e um dias. Importante lembrar que raramente os gatos e cachorros transmitem a sarna para os humanos.


As lesões aparecem mais entre os dedos das mãos, debaixo do braço, nos punhos e genitais; e pioram a noite. Imaginem a coceira que dá um parasita minúsculo, de uns 0,3 mm penetrando na pele? São muito intensas. Com o ato de coçar, vão formando escoriações que podem evoluir para feridas infectadas, causar sérios problemas e exigir internação hospitalar. Apesar de ser considerada um problema de saúde pública - estima-se que 200 milhões de casos ocorram anualmente – a sarna acomete mais países em desenvolvimento e, em especial, as suas crianças.


O tratamento tem como objetivo cuidar tanto do paciente e das pessoas próximas a ele, quanto de ambiente em que vivem. Inclui a administração de um agente escabicida – um dos quais frequentador assíduo dos telejornais por sua ficciosa indicação para o tratamento da Covid-19 -, bem como de um agente antimicrobiano apropriado caso haja infecção bacteriana associada. Roupas de cama e banho e de vestir devem ser descontaminadas por 3 dias, lavando-as em água quente e passando-as com ferro também bem quente. Aquelas roupas de tecidos mais frágeis, devem ser ensacadas durante, pelo menos, 72 horas. 


Somos um país pobre. A maior parte de nossa população vive na periferia de grandes centros urbanos aglomerados em submoradias. Palafitas, cortiços e favelas, fazem parte de nossa paisagem. Políticas públicas consistentes na área de saúde, educação e moradia são exigências mínimas de uma sociedade que quer ser grande.


Que as autoridades públicas comecem a ser coçar.
 


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