Rádio Jornal da Orla/Digital Jazz

Ouça agora

Colunistas/Livros e mais livros | 02/06/2021

Menino de engenho

Rafael Medeiros, Procurador do Município de São Paulo e ávido leitor.

Um clássico brasileiro.

Inspirado nas reminiscências de sua infância, José Lins do Rego estreou na cena literária brasileira com Menino de Engenho. Lançado em 1932, o romance foi instantaneamente reconhecido como um clássico da época. A linguagem exuberante, a força de sua boa prosa e a exposição de alguns dilemas de formação do povo brasileiro (sempre de forma sutil e contextualizada) impulsionaram a obra, que fulgura entre os mais respeitáveis romances que compõem o rico acervo literário deste país.  

 

As poderosas primeiras páginas enunciam a incrível tragédia familiar que mudará a vida do jovem protagonista. Cético, melancólico, solitário e com um verde coração de menino, é levado para viver no engenho do avô. Ali passará sua meninice e o início da adolescência, e os sonhos, as traquinagens, as supertições e dores. Vivia-se o período pós-abolicionista, e o autor, pelo olhar do menino, remontou as dificuldades daqueles que foram libertos porém esquecidos. 

 

Há livros que comovem e se tornam queridos. Ocupam um lugar especial na memória, no coração e na estante. Forjam uma memória afetiva que sempre estará lá. Este é um dos encantos dos livros: ficam à disposição para garantir o resgate do assombro, do conforto, da diversão; enfim, daquele momento único de deslumbre com o escrito. Menino de engenho traz uma beleza triste, em branco e preto, que cativará o leitor do início ao fim. 

 

Menino perdido, menino de engenho.

 

Motivos para ler:

 

1- José Lins do Rego, nascido na Paraíba (1901), causou furor com seu Menino de engenho. Via-se logo que ali havia uma potência literária. Com razão: aclamado pelo seu romance de estreia, seguiu escrevendo e bem. Tornou-se, um ano antes de sua morte, membro da Academia Brasileira de Letras; 

 

2- As passagens que se inclinam sobre a formação social brasileira são um show à parte. Destacamos três delas: (I) as brincadeiras com os “pequenos servos do avô”, crianças que brincavam com o menino mas que não eram propriamente amigos, evidenciando o dilema brasileiro marcado pela proximidade física que, no entanto, nunca suprime a distância social; (II) a senzala, desativada, continuou funcionando: sem ter para onde ir, as negras lá continuaram, até morrerem de velhice; (III) a figura do avô, dono de toda a terra e dos corpos, onipotente, que administra e julga toda sorte de conflitos surgidos entre os trabalhadores;

 

3- José Lins do Rego e Gilberto Freyre (autor do clássico Casa-grande & senzala) foram bons amigos e protagonizaram um curioso diálogo ao longo de suas obras, estabelecendo paralelos entre literatura e ciências sociais. Vale a pena notar essa fraterna simbiose entre as obras dos dois escritores. Uma bonita história de talento, amizade e comprometimento. 


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


Leia também

Colunistas | 21/07/2021
Colunistas | 14/07/2021
Colunistas | 07/07/2021