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Colunistas/Medicina e Saúde | 05/06/2021

Não é sopa

Marcio Aurelio Soares é médico sanitarista

Era um costume antigo dizer que a situação não estava 'sopa' quando não tínhamos boas notícias.

Tenho a impressão de que os mais jovens não vão entender este título. Uma expressão que permeia toda a minha vida desde a infância. Era um costume antigo dizer que a situação não estava “sopa” quando não tínhamos boas notícias ou ocorria algo indesejado. Ao contrário, quando a “sopa cai no mel”, aí sim, significa que o “céu está para brigadeiro”, tudo às mil maravilhas; uma situação extremamente favorável.   


Sopa nos remete a cuidado, carinho, atenção, recuperação. Para todos os males, a famosa sopinha surge como um santo remédio. Nutritiva, feita de legumes, é de fácil digestão; um prato típico da vovó, especialmente, em lugares mais frios. Não existe carinho melhor que uma sopinha bem quentinha, acompanhada de torradas. É tão bom que dá até para “ver” seu cheirinho típico saindo com a fumaça. Se você tivesse ido ao dentista, à noite estaria tomando sopa. Se tivesse saído de uma cirurgia, pode contar, tomaria sopa por, pelo menos, uma semana. 


Os costumes vão mudando, e as expressões, juntos. O que era “da pontinha da orelha”, hoje pode ser considerado “daora”. Mas, independentemente das gírias temporais, continuamos com dificuldade de tirar o “pé do atoleiro”, a situação não está mesmo “sopa” para ninguém.


Não abrimos mais os jornais, acessamos às notícias pelo celular, e o que vemos é só lacração, cancelamentos e muitas vezes, as malditas fake news. Estamos entrando numa terceira onda, ou nos mantemos em maré cheia da pandemia? As notícias nem sempre vêm para nos ajudar; é preciso muita atenção para entender os gráficos, as curvas, taxas de mortalidade e letalidade, e saber diferenciá-las. Muitos especialistas são entrevistados. Infectologistas, epidemiologistas, imunologistas, sanitaristas, passaram a frequentar os telejornais e as redes sociais diariamente. E isso é muito bom. Temos mais acesso às informações, o que estimula o debate nas rodas de conversa. O problema surge quando, sem formação técnica necessária, a população vira especialista. Apesar de estarmos há mais de um ano em situação de pandemia e vivendo sério de risco de adoecermos, temos que entender que a “sopa de letrinhas e números”, nos oferecida no atacado, não é nada fácil de ser degustada e digerida. Fazer sopa é coisa de vó, exige dedicação, experiência, cuidado e muito amor. Extrair números e concluir por condutas clínicas e sanitárias é tarefa para os médicos. 


Em tempos de crise, “cautela e canja de galinha não faz mal a ninguém”. E o cardápio de hoje é vacina. Como dizia minha mãe, goste ou não, acho bom você tomar, “com casca e tudo”. É reconfortante porque protege a você, sua família e toda a comunidade. Aí sim, será “sopa no mel”. E olha que a vacina não está dando sopa.
 


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