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Colunistas/Saúde e Beleza | 19/06/2021

Tratamento do piolho do couro cabeludo

Júlia Mendes é médica dermatologista e pediatra. CRM: 101090-SP / RQE: 32157/ RQE: 27484

(Pediculus humanus capitis)

É importante destacar que não existe um produto preventivo, não existe repelente, fórmulas caseiras podem até funcionar, mas os cuidados com as intoxicações se impõem.

 

Mais importante que qualquer medicação é a remoção mecânica das lêndeas com pente bem fino e a remoção dos piolhos realizada com meticuloso cuidado. 

 

Para facilitar a remoção das lêndeas, pode ser usada uma mistura de vinagre e água em partes iguais (1:1), embebendo os cabelos por meia hora antes de proceder a retirada com a passagem do pente fino ou manualmente, uma a uma, a acidificação causada pelo vinagre dissolve a gelatina fixadora da casca dos ovos. 

 

A lavagem da cabeça e utilização de pente fino é importante para a retirada dos piolhos e lêndeas, que devem ser removidas em sua totalidade

 

Os medicamentos não eliminam os ovos. Se as lêndeas não forem retiradas, darão origem a novos piolhos.

 

Uma vez encontrados piolhos e/ou lêndeas na cabeça da criança, todas as pessoas que tenham contato direto com esse transmissor, devem fazer a penteação. Isto evitará que uma pessoa da casa ou da escola funcione como foco do parasita e provoque novas infestações.

 

Roupas e utensílios pessoais de pano usados nas últimas 48 horas devem ser lavados com água em temperatura acima de 50 graus Celsius e/ou secados em máquinas de secar roupas nas mais altas configurações de calor

 

Os tratamentos têm que ser repetidos para que possa garantir que todos os piolhos sejam mortos, esse retratamento deve ocorrer quando todos os ovos sejam eclodidos

 

RESISTÊNCIA OU FALHA DE TRATAMENTO:

 

Considera-se como resistência ou falha de tratamento o encontro do piolho vivo 24 horas após um tratamento adequado

 

Quando expostas aos pediculicidas, as lêndeas saem do seu invólucro e desse modo recebem doses subletais, fato que explica a baixa ação desses fármacos sobre as lêndeas e a crescente resistência aos fármacos tópicos

 

Entretanto, a principal causa de falha no tratamento não é a resistência aos produtos e sim o tratamento incorreto 

 

Dentre as causas de tratamento inadequado estão: ausência de aderência ao tratamento, o uso impróprio do produto e a não retirada das lêndeas viáveis

 

Para que o tratamento seja considerado eficaz, o pediculicida deve ser aplicado cuidadosamente, em volume adequado, em duas ocasiões diferentes, com uma semana de intervalo entre elas.

 

Os cabelos devem estar secos quando da aplicação do pediculicida. 

 

O uso do produto nos cabelos molhados reduz a eficácia do tratamento. 

 

A presença de água nos cabelos ocasiona a diluição do produto e também desencadeia o fechamento reflexo do aparelho respiratório traqueal do inseto, reduzindo a penetração do inseticida em seu organismo.

 

Quantidades insuficientes é outro problema, principalmente em cabelos grandes e crespos. 

 

Dar especial atenção às regiões occipitais e retro auriculares durante a aplicação do pediculicida.

 

Os contactantes devem ser examinados e tratados, para evitar o risco de reinfestação. 

 

Recomenda-se o tratamento profilático das crianças que dormem no mesmo quarto. 

 

Desaconselha-se a exclusão da escola. Os pais devem ser notificados e o tratamento realizado antes do retorno escolar no dia seguinte.

 

A detecção de piolhos vivos após 24 horas de um tratamento adequado sugere resistência ao tratamento. O tratamento deverá ser repetido com um pediculicida diferente do utilizado.

 

TRATAMENTO MEDICAMENTOSO

TÓPICO: aplicação local de fármacos específicos para o extermínio dos parasitas sob a forma de xampus ou loções. 

 

SISTÊMICO: tratamento por via oral, em comprimidos, cuja dose varia de acordo com o peso da pessoa acometida.

 

Ambos os tratamentos devem ser repetidos após 7 dias. Em casos de difícil tratamento, os melhores resultados são obtidos com a associação dos tratamentos sistêmico e local.

 

TRATAMENTO TÓPICO

 

1. Deltametrina:

é uma substância sintética obtida do ácido crisantêmico, extraído da flor do crisântemo (Chrysanthemum cinerariaefolium)

 

A deltametrina apresenta elevado coeficiente de segurança e baixa toxicidade. 

 

Possui considerável efeito residual e alto poder letal contra piolhos

 

O xampu deve ser aplicado no cabelo e couro cabeludo secos, deixar agir durante 5 minutos, depois lavar e enxaguar. 

 

Usar durante 4 dias consecutivos.

 

2. Permetrina 1%:

 

É uma mistura de isômeros cis e trans de um piretróide sintético

 

Apresenta atividade residual por, aproximadamente, 14 dias

 

Aplicar o xampu nos cabelos e couro cabeludo secos deixando em contato com estas áreas por dez minutos, depois lavar, enxaguar bem e secar com uma toalha limpa. 

 

Uma dose única é recomendada, podendo em caso de persistência dos piolhos ser repetida outra aplicação após sete dias.

 

3. KWELL:

 

Permetrina (10mg), álcool isopropílico, propilenoglicol, cloreto de esteralcônio, álcool laurílico, polioxietileno 4 lauril éter, trietanolamina, poliquaternium, carbomer, água purificada.

 

Kwell® é indicado no tratamento de infestação por piolhos e lêndeas (ovos de piolhos).

 

Kwell® age sobre os piolhos provocando paralisia do inseto, facilitando sua remoção.

 

MODO DE USO RECOMENDADO NA BULA:

 

Lave o cabelo com xampu de sua preferência, enxágue-o e enxugue com a toalha.

 

Agite bem o frasco de Kwell® e aplique nos cabelos ainda úmidos, cobrindo todo o couro cabeludo, esfregando abundantemente em toda a extensão, principalmente atrás das orelhas e na nuca, onde os piolhos e as lêndeas se concentram mais. Tenha certeza de que todo o couro cabeludo ficou bem encharcado para não afetar o tratamento.

 

Deixe o produto agir por 10 minutos.

 

Passe o pente fino para a remoção dos piolhos e das lêndeas.

 

Enxágue o cabelo com água morna e enxugue com a toalha.

 

A quantidade de Kwell® necessária depende do volume e tamanho dos seus cabelos, pode ser necessário usar o frasco inteiro, e em alguns casos de cabelo mais longos pode ser necessário mais de um frasco. 

 

O efeito completo poderá ocorrer dentro de algumas horas. É provável que você ainda encontre alguns piolhos vivos logo após o uso. Espere algumas horas antes de usar o pente fino de novo.

 

Em geral uma única aplicação é suficiente. Se ainda houver piolhos e lêndeas após 7 dias da primeira aplicação, aplicar o medicamento pela segunda vez. Após 7 dias da segunda aplicação caso você ainda encontre algum piolho vivo deverá procurar o médico.

 

Pessoas que aplicam este produto rotineiramente podem usar luvas, para evitar uma possível irritação nas mãos.

 

4. Monossulfiram:

 

Apresenta baixa absorção pela pele e, quando isto ocorre, é rapidamente excretado, não metabolizado, pelas vias urinárias. 

 

Não existe na apresentação xampu, 

 

A forma sabonete é utilizada para lavar o cabelo e couro cabeludo, depois enxaguar 

 

A apresentação solução de monossulfiram previamente diluída, para uma parte da solução, juntar 2 (adultos) ou 3 (crianças) vezes a mesma quantidade de água. Depois de 8 horas, lavar para remover o líquido aplicado

 

Após sete dias, repetir o tratamento

 

5. Lindano e benzoato de benzila: 

 

Estão em desuso, pela elevada freqüência de resistências e ocorrências de efeitos adversos, devendo ser substituídos pela permetrina, que raramente apresenta toxicidade e já consta na RENAME 2006 (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – Brasil 2006).

 

TRATAMENTO SISTÊMICO

 

1. Ivermectina:

 

é um antiparasitário de amplo espectro, derivado das avermectinas, uma classe isolada de produtos de fermentação do Streptomyces avermitilis

 

A ivermectina de uso oral surgiu como opção para os casos resistentes.

 

A eficácia da ivermectina via oral no tratamento da pediculose, incluindo os casos resistentes foi demonstrada em vários estudos 

 

Cada comprimido contem 6 mg de ivermectina e devem ser ingeridos com água. 

 

A dosagem recomendada para o tratamento da pediculose numa única dose oral visa fornecer aproximadamente 200 mcg de ivermectina por kg de peso corporal

 

Peso corporal (Kg)  Dose única
15 a 24 anos  1/2 comprimido
25 a 35 1 comprimido
36 a 50 1 1/2 comprido
51 a 65 2 comprimido
66 a 79 2 1/2 comprimido

Não foram estabelecidas a segurança e eficácia em crianças com menos de 15 kg

 

NOVAS OPÇÕES TERAPÊUTICAS:

 

Algumas opções terapêuticas estão aprovadas pelo Food and Drug Administration (FDA), mas ainda não disponíveis no Brasil. Exemplos:

 

Preparações feitas com malathion a 0,5% que contém cerca de 16% de terpenóides. 

 

      A formulação do malathion misturado com um gel de hidroxipropilcelulose.

 

A US Food and Drug Administration (FDA) aprovou em Abril de 2009 uma novo método terapêutico para tratamento da pediculose, a loção de álcool benzílico a 5%. Essa loção é o primeiro e único medicamento de prescrição que mata piolhos por asfixia, sem o risco de neurotoxicidade e efeitos adversos

 

Aparelho eletrônico para matar piolhos e lêndeas desenvolvido na Universidade de Utah, EUA, que consiste em um dispositivo que produz um volume de ar duas a três vezes maiores que o ar quente de um secador de cabelos normal, mas a uma temperatura menor, cerca de 60º Celsius. Ela resseca e “varre” os piolhos e lêndeas com jatos ar 

 

CONCLUSÃO:

 

Existem vários tipos de tratamento para a pediculose do couro cabeludo, o médico deve estar atendo ao custo, modo de aplicação, mecanismo de ação, índices locais de resistência, adesão ao tratamento e principalmente o risco de reinfestação.

 

Independente da opção terapêutica, qualquer tipo de tratamento deve ser acompanhado de uma didática explicação sobre noções básicas de higiene como troca das roupas de cama e banho, higiene de pentes e escovas e lavagem de bonés, tiaras, fitas e outros adereços utilizados nos cabelos, associados a importância da catação manual dos piolhos e a penteação das lêndeas

 

Não desaparecendo os sintomas, procure orientação de seu médico.


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


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