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Colunistas/Cinema | 26/06/2021

Dica da semana: A vigilante

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Consegue registrar, com sensibilidade, as violências causadas por uma sociedade machista.

A Vigilante tem inspiração em dois tipos de filmes bastante comuns: o do vigilante, onde mostram pessoas que saem pelo mundo a procura de justiça com as próprias mãos e executando bandidos sem temer a justiça e filmes sobre abusos sofridos por mulheres, que geralmente são dirigidos por homens. Aqui, o filme é dirigido por uma mulher, no caso a diretora australiana Daggar-Nickson, que resolveu retratar seu filme com uma dureza e violência atípica a produções deste gênero, com a temática do abuso sendo acertadamente abordada de uma perspectiva totalmente feminina. A Vigilante é um filme que trata de um assunto extremamente delicado e importante, que é o abuso doméstico. Entretanto, não é só de vontade e fôlego que se faz um filme.


No filme, Sadie (Olivia Wilde) é uma mulher que sofreu violência doméstica e enquanto ajuda outras vítimas a se livrarem de seus agressores, tenta matar o próprio marido ( Morgan Spector) para que seja realmente livre. A Vigilante é um thriller inspirado na força e bravura de sobreviventes de abuso doméstico e os obstáculos que enfrentam para ficarem seguras. A diretora Daggar-Nickson, estreando em longas metragens, adota uma linguagem quase documental ao seu filme, com relatos de histórias de mulheres vítimas de violência doméstica, aliado a uma pegada mais soturna e realista que aproxima o público na tormenta que é a vida de sua protagonista. O filme é extremamente seco e com algumas cenas difíceis de serem assistidas, dado a crueza com que a câmera apresenta estes fatos, mas ao mesmo tempo bastante comedido em relação à violência que decide retratar, mostrando ao público apenas o essencial. A diretora não deixa claro se este é o caminho correto a se seguir, o que dá um ar mais real ao filme, que não glorifica os atos violentos de sua protagonista em momento algum.


O roteiro nos apresenta a sua protagonista quando ela já está em ação, em uma eficiente cena inicial, onde consegue construir empatia junto ao público para depois revelar mais sobre seu passado, intercalando flashbacks (que revelam maiores detalhes do que a levou aquela situação), com momentos de sua vida nos dias atuais. Essas transições acontecem de forma precisa, criando um ritmo estável ao filme.


A trilha sonora está presente nas partes mais mundanas da rotina de sua protagonista: seja quando ela está treinando, mudando de um hotel para outro ou planejando seu próximo movimento. A fotografia não inova, mas chama a atenção com grandes planos da cidade no inverno, ou no uso de uma paleta de cores mais escuras, onde o azul e o cinza se sobressai, dando uma atmosfera melancólica e fria. 


Olivia Wilde apresenta aqui o que provavelmente seja a melhor performance de sua carreira, com uma personagem que demonstra emoções extremas e deve transitar entre diversos sentimentos às vezes em uma só cena. A atriz leva o filme nas costas, criando uma personagem com um grande sofrimento internalizado que canaliza tudo para a violência e ao mesmo tempo demonstrando grandes momentos de pura vulnerabilidade.


Infelizmente, A Vigilante se deixa levar pelo velho clichê narrativo da perseguição final com reviravoltas estratégicas para que toda a ação se complete para fechar um arco dramático que já estava completo. Mas mesmo deslizando em seu terceiro ato, consegue registrar com sensibilidade a situação em que se encontram mulheres e crianças desassistidas em relação as violências diárias causadas por uma sociedade machista e que está em todo lugar.


Curiosidades: Além de atuar, Olivia Wilde também é produtora do filme. 


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