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Colunistas/Medicina e Saúde | 16/07/2021

Singultos

Marcio Aurelio Soares é médico e escritor.

Arte: Alex Ponciano

Soluço e singulto querem dizer a mesma coisa. O segundo, com um cunho mais científico. 

Escrevo no momento que a imprensa noticia a internação hospitalar do presidente da República. Independentemente de minhas convicções políticas, todos ficamos surpresos e preocupados pelo ser humano, por sua representação política e os desdobramentos que isso poderá acarretar.

 

Durante o almoço comentei com algumas pessoas que me acompanhavam à mesa: “O presidente vai ser operado. A doença? Soluços”. Todos riram espontaneamente, com a certeza de que eu estaria brincando. Como médico, jamais poderia fazer este diagnóstico, deviam ter pensado. Ao contrário, se tivesse dito que o presidente procurou o hospital pela ocorrência de singultos persistentes, teriam se entreolhado com ar de incógnita, admirando minha erudição científica. 

 

Soluço e singulto querem dizer a mesma coisa. O primeiro, conhecido popularmente; o segundo, com um cunho, digamos, mais científico. 

 

Lembro quando ainda estudante, fazia estágio de cirurgia geral em um hospital. Meu professor era de poucas palavras com os estudantes, muito exigente e nos cobrava atenção especial com a descrição do diagnóstico e sua evolução clínica. 

 

Como interno sextanista, uma das principais tarefas era receber os doentes para internação, encaminhados do pronto-socorro. Isso significava descrever a queixa do doente e todo o exame clínico para que nossos professores então procedessem ao tratamento. Mas como dizer que meu paciente estava internando com soluços? Seria mesmo essa a descrição científica daquele problema que o incomodava tanto? Achei que poderia vir a ser motivo de piada de outros colegas de enfermaria. Típica insegurança de estudante. Procurei nos livros, aquela época ainda de papel – imagina quanto tempo não faz – e descobri que soluços persistentes tinham uma designação mais pomposa: singultos. Não pensei duas vezes. Onde no formulário perguntava a queixa do paciente. Cravei, singultos. 

 

No dia seguinte, em sessão clínica entre os internos, residentes e professores, chegou minha vez de relatar meu caso clínico. Levantei-me e iniciei a descrição do caso por sua queixa: singultos. Desconfiado, olhei meu professor e meus colegas por cima das lentes dos meus óculos, quando não foi minha surpresa perceber uma interrogação na testa de todos. SINGULTOS? 

 

“Dr. Marcio Aurelio (eu ainda não tinha me formado, esse ‘Dr.’ tinha um quê de ironia e provocação) explique para seus colegas o que são singultos”. 

 

“Professor, singultos são conhecidos como soluços persistentes e tem inúmeras causas que eu gostaria de colocar em discussão nesta sessão clínica. Neste caso, há três anos, o paciente foi vítima de lesão traumática no abdome, desenvolveu hérnia de hiato que, apesar de parcialmente corrigida, vem lhe incomodando bastante e é a provável causa da irritação de seu diafragma, o músculo da respiração, que passa a se contrair abrupta e involuntariamente. Tenho a impressão de que seu caso é de indicação cirúrgica. Muito bem. Vamos solicitar os exames.” 

 

A essa altura, eu já estava suando frio. Ao final, recebi tapinhas nas costas de congratulações dos colegas e ainda me achando “o cara”, percebi a aproximação do professor que me chamou à sua sala. “‘Dr’, busque a simplicidade, faça-se entendido e se comunique com os colegas, seus doentes e professores de modo que todos entendam. Erudição não é falar difícil. Cultura e conhecimento científico devem ser compartilhados. De qualquer forma, parabéns!” 

 

Neste dia entendi por que “ele” era o professor.


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