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Colunistas/Livros e mais livros | 21/07/2021

Não vai acontecer aqui

Rafael Medeiros, Procurador do Município de São Paulo e ávido leitor.

Um clássico sobre o autoritarismo.

Escrever livros é também contar a aventura civilizatória de um povo. E como a história tende a se repetir, alguns livros, adormecidos por um tempo, voltam às boas vendas. Não vai acontecer aqui, escrito em 1935 pelo vencedor do Nobel Sinclair Lewis, revive com imensa força em razão da onda populista-reacionária que assola o mundo contemporâneo. 

 

O livro se situa nos EUA pós-depressão de 1929. O senador Windrip é eleito presidente com uma pauta militarista, viril-populista, religiosa e preconceituosa. Todos reconhecem que se trata de um despótico, mas acreditam que uma ditadura jamais aconteceria no país: “não vai acontecer aqui”, diziam. E então Windrip alarga a justiça militar sobre o povo, persegue a imprensa, manipula as informações, forma sua própria milícia e concentra poderes em si mesmo. O jornalista Doremus, que sempre alertou sobre o espectro fascista do candidato, conheceu o inferno por se opor ao governo desde o início. 

 

Uma poderosa fábula sobre como a complacência liberal pode se tornar vítima da tirania. A democracia é frágil e necessita de constante vigília. O autoritarismo está sempre à espreita.

 

Motivos para ler:

 

1- Sinclair Lewis foi o primeiro norte americano a vencer o Prêmio Nobel de Literatura (1930). Este livro é considerado pela crítica como um dos mais importantes já escritos nos EUA;

 

2- O livro evoca uma questão importante: quanto mais militarismo, menos democracia. Por isso uma severa contenção de militares em cargos políticos é sempre recomendável. Há uma PEC tramitando no Congresso nesse sentido e merece o apoio de todos. Vale lembrar o exemplo da Costa Rica, que aboliu o exército e vive há 70 anos sem Forças Armadas, realocando seus investimentos no social com sucesso; 

 

3- Não vai acontecer aqui? Temos indicativos ruins: a restrição de clássicos pela Fundação Palmares, a incrível declaração do Presidente de que não haverá eleições se não for do jeito dele, a falsa narrativa das eleições fraudadas, os ataques aos Poderes, o uso abusivo da Lei de Segurança Nacional para perseguir jornalistas, o comportamento religioso-militar-ideológico fanático que norteia o governo. O alarme já tocou e muitos fingem não perceber. O pior pode acontecer em qualquer lugar. 


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


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