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Colunistas/Cinema | 24/07/2021

Dica da semana: Trilogia 'Rua do Medo'

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Reprodução

Comete erros ao se arriscar, mas cumpre objetivo de agradar o público jovem e fãs do gênero.

A NETFLIX finalizou a estréia em seu catálogo da trilogia Rua do Medo, um ambicioso projeto que poderia muito bem ser categorizado como uma minissérie de três longos episódios, que entrega uma boa homenagem ao gênero "slasher"adaptando uma série de livros de R.L Stine , autor considerado o principal escritor americano de terror infanto-juvenil. Série de TV tem sido um dos grandes pilares da NETFLIX em se consolidar como o maior serviço de streaming do mundo e Rua do Medo representa seu novo experimento narrativo, combinando série com longa metragem sendo que nenhum filme funciona sozinho. O espectador só terá uma experiência completa, se assistir aos três filmes completos, sendo que nem todos mantém o mesmo padrão de qualidade esperado.


A história é sobre uma cidade – Shadyside – que é conhecida pelo súbito comportamento estranho de seus moradores. Em cada época, um cidadão comum misteriosamente se transforma em um assassino em série, criando uma mitologia em torno do local, como uma rede de teoria da conspiração que surge nos fóruns da internet afim de explicar todos os acontecimentos. A razão dessas mortes seria a maldição de uma bruxa chamada Sarah Fier (Elizabeth Scopel), que teria sido morta pelos moradores da cidade em 1666, lançando neles uma maldição. Em 1994, um grupo de adolescentes acaba se envolvendo com esses mistérios após uma briga entre escolas das cidades rivais, Shadyside e Sunnyvale. Dividido em três longas passados na ordem de 1994, 1978 e 1666, todos são dirigidos pela cineasta Leigh Janiak, que demonstra-se uma grande fã do gênero também assinando o roteiro de todos.  No primeiro longa, passado em 1994 a diretora cria a atmosfera do serial killer urbano, o de 1978 resgata o gênero slasher e por fim o de 1666, temos fortes crenças e rituais. Recheado de referências a cultura pop, a diretora insere em sua trilogia uma introdução no estilo Psicose, um stalker que age como Michael Myers, uma figura ameaçadora com saco na cabeça no estilo Sexta-Feira 13 e para completar, machadadas na porta idênticas a famosa cena de O Iluminado. Porém, os clichês do gênero continuam, como a estupidez dos personagens para acabarem mortos e os sustos gratuitos também estão presentes. Além disso, a diretora começa sua trilogia com uma aparente falta de credibilidade na própria narrativa, afetando seu ritmo deixando o longa cansativo de assistir e demonstrando dificuldade em encontrar sua própria identidade, fato que é esquecido nos dois longas seguintes, conseguindo acertar o tom e refinar suas qualidades. 


Apesar de ter uma premissa bem simples e não tão original, o roteiro sabe usar muitos recursos exaustivamente utilizados em filmes de terror em seu benefício, subvertendo alguns clichês e, quando os usa, homenageia e resgata um gênero esquecido mas que foi grande sucesso décadas atrás. Mais do que construir um roteiro que nos leva por alguns caminhos surpreendentes, a construção de seus personagens são o ponto chave para criar um aço entre eles e o público e, todas as personagens, com destaque para as femininas, são bem desenvolvidas. O roteiro enfoca as relações entre elas, sejam elas amorosas, de amizade ou de fraternidade fazendo com que o público se importe com seus destinos.


Rua do Medo tem uma boa seleção de trilha musical, cada uma específica para cada período, um bonito trabalho de cinematografia adaptando bem sua paleta de cores a cada época retratada, assim como sua direção de arte, especialmente em 1666 (meu longa preferido) criando uma atmosfera hostil e claustrofóbica. 


Alguns atores aparecem em períodos diferentes do filme e vale destacar o consistente trabalho da atriz Kiana Madeira, que vive a heroína Deena de 1994.


A trilogia Rua do Medo deixa a impressão de ser mais homenagem do que propriamente uma narrativa, mas é um projeto ousado e uma ótima viagem aos clássicos filmes de terror dos últimos anos. É um projeto com bastante coração de sua diretora, que referencia o cinema de terror de diversos períodos históricos e que comete erros ao se arriscar, mas no fim cumpre seu objetivo de agradar tanto o público jovem, quanto os fãs de longa data do gênero.


Curiosidades:  A diretora Leigh Janiak passou a adolescência nos anos noventa, e usou as próprias vivências para compor a história de Rua do Medo.


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