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Colunistas/Livros e mais livros | 08/09/2021

Esaú e Jacó

Rafael Medeiros, Procurador do Município de São Paulo e ávido leitor.

Machado, sempre. 

Esaú e Jacó foi escrito na fase mais madura de Machado. Penúltimo romance de sua luminosa bibliografia e escrito quando já dominava com perfeição o seu ofício de escritor, é curioso notar que este livro não abiscoitou o mesmo prestígio alcançado por outros. É famosa a crítica elaborada pelo inglês John Gledson, profundo estudioso da obra machadiana e tradutor de vários de seus livros, afirmando que o enredo é “particularmente tedioso e desenxabido”. 

 

Polêmicas à parte, trata-se de um autêntico Machado de Assis. Está tudo lá: a inimitável condução da narrativa, a ironia, os deliciosos eventos laterais (é impagável o drama do confeiteiro que, em plena Proclamação da República, temia abrir sua loja chamada Império) e a espetacular habilidade de conversar com o leitor por meio de um narrador onisciente. 

 

Fincado nas agitações sociais situadas entre o fim do Império e o alvorecer da República, o livro apresenta a vida dos gêmeos Pedro e Paulo. Em clara paródia ao mito bíblico que nomeia o livro, os gêmeos nunca combinaram: já lutavam no ventre e, em vida, ocuparam campos ideológico-políticos incompatíveis e apaixonaram-se pela mesma mulher. No entanto, em dado momento, tentaram uma trégua após uma vida inteira em disputa. Possível? O final do livro responde. 

 

 

Motivos para ler:

 

1- Machado de Assis transcendeu o domínio da escrita, transformando-se em verdadeiro virtuose. Há notícia de que suas obras estão sendo mais traduzidas e lidas mundo afora. Oxalá se faça justiça em termos planetários: Machado se equipara facilmente aos grandes romancistas do mundo de todos os tempos, e não há nenhum exagero aqui;

 

2- A história civilizatória dos homens é cíclica. Diferentemente dos progressos tecnológicos, que sempre apontam numa ascendente, a civilização não caminha numa estrada reta: há sempre avanços e retrocessos. Publicado no longínquo 1904, o livro fundamentalmente apresenta irmãos que se digladiam em termos ideológicos: um é monarquista e conservador; o outro, republicano e progressista. Um severo racha familiar por questões políticas. Isso lhe soa atual?;

 

3- Não é aconselhável passar pela vida ser ler Machado. Fica o alerta. 


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